- Escrito por José Manuel Henriques
- tamanho da fonte diminuir o tamanho da fonte aumentar o tamanho da fonte
- Imprimir
O fenómeno das provas de Trail em Portugal
As provas de trail representam para a corrida, literalmente, uma lufada de ar fresco e o fenómeno veio para ficar, a avaliar pelo crescente número de provas e de praticantes
Indiscutívelmnte que o Trail está na moda. Tanto que, especialmente nos últimos dois, três anos, as provas têm aparecido como cogumelos por todo o país, na proporção do aumento exponencial do número de praticantes. Muitos vindos da estrada, outros e são muitos, que ingressaram na corrida, diretamente para as provas de trilhos (em inglês trail).
Mas a que se deve tamanho sucesso? Haverá várias razões, mas destaco algumas, baseadas na mera observação pessoal, mas que nos devem merecer reflexão. Começo pelo próprio ambiente vivido em torno das provas com estas características, que se constituem como um nicho, onde impera a boa disposição e onde os prémios monetários são tabu, por assim dizer, o que retira logo a carga negativa que a competição pelo dinheiro pode trazer. Os atletas partilham de um gosto comum e o convívio antes, durante e depois das provas é inevitável.
O Trail foi uma fuga da rotina para muitos atletas, que depois de experimentarem as loucas corridas por montes e vales dificilmente voltam para a estrada com a frequência de antigamente e institui-se o atletismo-turismo no Portugal profundo, que leva os atletas e seus familiares a lugares recônditos, onde há meia dúzia de anos apenas não se pensava sequer na ousadia de cruzar a pé a serra e os montes à volta das pequenas aldeias, quanto mais a correr, de mochila às costas, feitos maluquinhos - que era assim que os locais viam os esforçados atletas.
O gosto pela aventura no contacto com a natureza, o imprevisto dos trilhos, onde muitas vezes nem as bicicletas de todo-o-terreno se atrevem a cruzar, colocou o Trail num patamar de crescimento como há muito não se via no desporto nacional, comparável, talvez, ao forte crescimento que o BTT teve na última decada.
Mas afinal que Federação coordena as provas de Trail? A de atletismo não é de certeza e o fenómeno multiplica-se quase que espontaneamente, atropelando-se muitas vezes a si próprio com a coincidência frequente de datas, que começam a ser escassas para tamanha procura, sendo que boa parte das provas de trail não requerem sequer autorização da associação regional de atletismo do distrito onde se realizam e não apresentam seguro obrigatório para os atletas, que é exigido aos organizadores de provas de estrada, por exemplo. E porque o fenómeno é recente, novos são os problemas que se colocam ao Trail em Portugal.
Mas se o Trail tem em comum a corrida com o atletismo, a verdade é que o espírito que se vive no trail não se compadece com os critérios competitivos de uma federação como a do atletismo. O Trail é, por príncipio, uma espécie de desafio pessoal que cada um se coloca a si mesmo, dadas as longas distâncias a percorrer (normalmente mais de 30 km), por trilhos de difícil acesso e onde as descidas, sobretudo as descidas, podem ter um grau de perigosidade elevado. Daí que os ritmos de corrida, não raras vezes transformados em passada simples feita a muito custo, por força das subidas íngremes, sejam contrários aquilo que nos habituou o atletismo tradicional, incluindo o corta-mato.
Defendo pois, que o Trail possa ter enquadramento próprio, com a criação de uma Federação própria, capaz de coordenar e orientar o crescimento de um fenómeno que às tantas e se não houver uma coordenação organizada, pode trazer outros problemas… as chamadas dores de crescimento.
O Trail não sendo um desporto reconhecido, não deixa de ser uma atividade desportiva e uma forma muito peculiar de estar na vida que merece um tratamento especial, até pelo potencial que encerra, nomeadamente o do atletismo-turismo, como já aqui referi.
Espero para ver a Federação de Trail de Portugal.
José Manuel Henriques
Diretor do Atletas.net