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Timor olímpico com sabor português

Timor olímpico com sabor português

Augusto Soares e Juventina Napoleão são os dois atletas timorenses a quem cabe a responsabilidade de representar o seu país nos Jogos Olímpicos de Londres. Nos últimos meses a sua preparação tem passado por Portugal e pelo Porto. 


Os nomes de Augusto Soares e Juventina Napoleão podem não dizer muito à maioria dos portugueses, mas para os timorenses serão eles os atletas que irão representar Timor-Leste nos Jogos Olímpicos de Londres. Longe, muito longe dos desejos por uma medalha, aos dois maratonistas cabe essencialmente a responsabilidade de representar o seu país no maior evento desportivo à escala mundial e nos últimos meses a sua preparação tem passado por Portugal. A Universidade do Porto paga as despesas com o alojamento e a alimentação dos atletas e dos dois elementos da comissão técnica - treinador e coordenador, mas é na transmissão do saber que está o fundamental de uma semente que tem tudo para germinar em Timor, onde quase tudo está por fazer e também ao nível do planeamento do treino desportivo. De Portugal levam o carinho do acolhimento lusitano, mas também e sobretudo, a formação que receberam na área do treino de corrida numa saudável transmissão do saber.

Para além dos dois atletas e do seu treinador, a comitiva maubere tem também um português: Nélson Silva foi outrora um militar da GNR destacado para Timor-Leste, onde criou fortes laços afetivos, tanto que chegou a orientar ciclistas da seleção tmorense de BTT e acabou mesmo por aprender a língua tétum, fundamental para que aconteça a comunicação no decorrer da estadia dos atletas timorenses em Portugal. Faz parte da comissão de coordenação técnica da comitiva de Timor-Leste para os Jogos Olímpicos e é um elemento fundamental, já que participa ativamente na preparação dos atletas timorenses. E foi graças a Nélson Silva que foi possível traduzir as respostas dadas às perguntas colocadas pelo Atletas.net ao treinador timorense António da Costa.

Atletas.net: Que importância dá a este estágio no Porto para a comitiva timorense?
António da Costa:
O estágio no Porto, é muito importante, para estes atletas Timorenses que vão participar na maratona dos Jogos Olímpico, porque os atletas vem de uma Nação onde o clima e o fuso horário são muito diferentes, aqui no Porto temos a oportunidade de nos adaptar a um clima e fuso horário similares a Londres.

Com a vinda para a Universidade do Porto, os atletas podem também ter uma avaliação do controlo do treino, ter condições de treino que em Timor-Leste não existe. E toda a formação técnica que estamos a ter é bastante importante, para a nossa aprendizagem.
Penso que a Universidade do Porto é um bom sítio para outros atletas virem estagiar, e se prepararem para as competições nesta parte da Europa.

Que pensa ser necessário para fazer crescer em quantidade e qualidade o atletismo em Timor-Leste?
Timor-leste precisa de ter mais competições anuais, a federação simplesmente ajuda a realizar duas corridas anuais, uma meia maratona, que é a selecção para a maratona de Díli, e a outra a própria maratona de Díli, não tendo um calendário anual competitivo, o que assim é difícil motivar os atletas, e aos treinadores, isso será fundamental para o crescimento do atletismo em Timor-Leste.

Há pessoas que estão contra os wild-cards nos Jogos Olímpicos. Qual a sua opinião?Penso que os wild-cards são importantes, para que todos os países possam participar nos Jogos Olímpicos, para uma Nação pequena como Timor-leste a oportunidade de participar nos Jogos Olímpico ira ajudar muito a todo o desenvolvimento do desporto em Timor-leste. Os nossos atletas ganham mais experiencia e é uma grande motivação para continuarem o seu treino, e fazerem sonhar outros atletas Timorenses que queiram futuramente participar nos Jogos Olímpicos.

Ao nível da metodologia do treino que novidades é que destacaria daquilo que apreendeu nesta estadia?
Este estágio esta a ser muito enriquecedor, porque esta a proporcionar grandes aprendizagens, ao nível da metodologia do treino, ao participarmos, na sessão final do curso avançado de treino na corrida, fez com que os nossos conhecimentos aumentassem bastante em relação a metodologia do treino.

Foi a primeira vez que os atletas de Timor-Leste fizeram o teste para determinarem o seu limiar anaeróbio, algo que pode ser fundamental para programar os treinos. Temos tido uma grande aprendizagem em relação ao treino de força, algo que os nossos atletas não faziam muito antes de vir para o Porto, tenho apreendido bastante e levo grandes noções do treino para poder aplicar em Timor-leste, isso deixa-me muito contente, por estar a participar neste estagio junto da Universidade do Porto.

Que tipo de apoios encontraram para poderem fazer este estágio em Portugal?
A Universidade do Porto, por intermédio do Prof. Paulo colaço, esta a apoiar esta delegação, em todo o acompanhamento técnico, recebemos formação por parte do Prof. Paulo. A nível da parte logistica, alojamento e alimentação esta a ser suportada por parte da Universidade do Porto a qual estamos encarecidamente agradecidos. Com esta oportunidade de estar a estagiar no Porto, estamos a desenvolver conhecimentos e a ganhar experiencias que em outro qualquer lugar seria impossível.

Como classificaria o trabalho efetuado na Universidade do Porto?
A Universidade esta a efectuar um trabalho espectacular junto da nossa comitiva, temos tido todo o apoio necessário, para a nossa preparação em Portugal, estamos muito contentes, por todo esse apoio, em especial ao apoio do Prof. Paulo Colaço que se esta a disponibilizar a acompanhar esta comitiva tecnicamente, dado todo o seu apoio e conhecimento. Muito obrigado à Universidade do Porto por todo este apoio.

Quais os objetivos da participação olímpica dos atletas timorenses em Londres?
O principal objetivo será, levar o nome de Timor-Leste aos Jogos Olímpicos, terminar a competição em boas condições e bater os recordes nacionais de Timor-Leste que são 2h32 para os masculinos e 3h02 para os femininos.

Tem sido visível, alguma evolução na performance dos atletas nos tempos em que se encontram em Portugal?
Os atletas têm melhorado muito a nível técnico, na sua forma de correr, e principalmente na sua condição psicológica, que esta muito mais forte, por estarem a participar neste estagio, tem conhecido muitas pessoas que os tem ajudado e tem dado força para alcançar os seus objectivos. ao estarem a fazerem um bom trabalho junto da Universidade do Porto, isso ajuda bastante os nossos atletas a terem bons resultados na sua competiçao no Jogos Olímpicos.



A parceria com a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

Por causalidade a vinda dos atletas timorenses para o estágio em Portugal coincidiu com a segunda edição do Curso Avançado de Treino na Corrida, promovido pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Paulo Colaço, o dinamizador do curso, tem seguido de perto a evolução dos atletas timorenses e não tem dúvidas em afirmar que esta é uma parceria com pernas para andar.

Atletas.net: Quais as maiores dificuldades que encontrou na metodologia do treino seguida pelos atletas timorenses?
Paulo Colaço: Os problemas que encontrei são facilmente identificados, com o facto de falarmos de um país em que, quase tudo, se está a organizar e onde naturalmente o atletismo e o treino desportivo não serão uma realidade diferente de outras. A pouca diversidade de meios e métodos de treino, estímulos demasiado centrados no volume, a ausência de procedimentos de avaliação e controlo do treino e poucas oportunidade de treino em grupo são alguns dos problemas que mais se notam. Outro problema complicado de resolver é a falta de competição regular, que não lhes permita desenvolver estímulos de qualidade na corrida, o que os acaba por condicionar de forma marcante. De qualquer modo o que me parece mais relevante não é tanto essas dificuldades, mas a enorme vontade de as ultrapassar! Uma vez mais fico com a ideia de que quando as dificuldades são grandes, a vontade de as ultrapassar é ainda maior. Não há espaço para zonas de conforto e a palavra de ordem é treinar. Com um pouco mais de qualidade no processo de treino, estas dificuldades podem constituir uma mais valia para estes atletas...

Como nasceu esta parceria com a Universidade do Porto?
Esta parceria nasceu de relações já existentes entre a Universidade do Porto e Timor ao nível de possíveis projectos conjuntos. Os atletas e treinadores Timorenses sentiram necessidade de estagiar na Europa e a Universidade do Porto, foi desde logo a escolhida. Falamos de dois atletas que são igualmente estudantes de desporto na Universidade de Timor Lorosae e por isso mesmo ávidos de conhecimento e vontade de novas experiências. Por isso mesmo, quando nos contactaram no sentido de tentarem desenvolver um estágio de preparação entre nós, a Universidade do Porto e mais concretamente a Faculdade de Desporto só podia abrir os braços e fazer tudo para que esta experiência pudesse ser marcante nas suas vidas e que pudesse deixar sementes para o futuro do desporto em Timor e de intercâmbio ao nível do Ensino Superior, particularmente no Desporto.

Pensa que este tipo de intercâmbios se poderiam estender a outros país, nomeadamente os PALOP´s?
Penso que é inevitável. Estamos de facto num mundo cada vez mais global e onde todas as distâncias e barreiras se quebram a um ritmo impressionante. A Universidade do Porto está cada vez mais internacionalizada a todos os níveis e na Faculdade de Desporto, lido anualmente com um número crescente de alunos, vindos de todo o mundo que sabem que quando vêm ter connosco, vão lidar com uma cultura de trabalho, de exigência e de aprendizagem que os marcam para sempre. A nossa responsabilidade para com países como Timor é enorme e não tenho dúvidas que estes intercâmbios não só vão crescer, como iremos deixar uma vez mais, marcas importantes, neste caso, num apoio ao desenvolvimento desportivo que aproxima povos e pessoas de forma ímpar. Cumprimos assim uma missão de apoio e amizade que Portugal tão bem fomentou ao longo de tantos séculos por esse mundo fora.

Numa parceira há sempre vantagens repartidas. Quais as vantagens que a Universidade do Porto retira desta experiência?
Na Universidade do Porto, temos uma cultura de partilha com o mundo, que nos abre sempre portas de aprendizagem com todos. O conhecimento, só o é de facto, quando chega às pessoas, à sua prática diária e se traduz em melhorias substanciais de aspectos importantes na vida das pessoas. A investigação coloca-nos vários desafios e a tradução do conhecimento, no sentido de o tornar tão exequível quanto possível, em todas as realidades, gera-nos desafios enormes constantes. Temos por isso a nossa quota parte de aprendizagem e a concretização de uma valorização social do conhecimento, transferindo-a para um país com laços históricos que nos unem de uma forma que só percebemos quando lidamos com a forma como os Timorenses no vêm e nos acarinham. Esperamos poder contribuir para mudanças e inovação na área do treino desportivo em Timor e de alguma forma contribuirmos para uma maior cooperação e aproximação com Timor. Falamos de valores e da própria natureza institucional da Universidade do Porto que é algo que prezamos muito e que orienta a nossa actividade diária. Temos por isso muito a ganhar.

Estaria a UP interessada em desenvolver um projeto de criação de um polo universitário em países como Timor Leste ou países africanos de língua oficial portuguesa com base em experiências de parceria como esta que agora se está a desenvolver?
Esse trabalho está a ser feito, com diversos países e diferentes realidades culturais, sociais e científicas por esse mundo fora. Ainda nas últimas semanas tive colegas da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, a desenvolverem precisamente esse trabalho em vários países e somos cada vez mais visitados por alunos e docentes de muitos países por esse mundo fora. É fantástica a multiculturalidade que temos neste momento na nossa Faculdade e que é sentida em cada aula. Neste domínio a Reitoria da Universidade do Porto e a própria Faculdade de Desporto, estão a desenvolver um trabalho notável que se sente no dia a dia da instituição.

 

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