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Orientação Editorial (4)

EOC/ETOC 2014: Palmela, uma mão cheia de oportunidades

1. O Orientovar anunciou-o em primeira mão e a notícia apanhou (quase) toda a gente de surpresa. A organização do Campeonato da Europa de Orientação Pedestre / Orientação de Precisão EOC/ETOC 2014 acabava de ser atribuída a Portugal e Palmela iria sediar o evento. O entusiasmo inicial, porém, cedo pareceu desvanecer-se. Datas para o evento, qualidade dos terrenos, capacidade organizativa na vertente da Orientação de Precisão e oferta de Campos de Treino vêm pontuando as principais dúvidas em torno dos Europeus, dúvidas essas que se vão avolumando há medida que o tempo avança. O Orientovar aceitou desempenhar o papel de “advogado do Diabo” e, ao mesmo tempo, desmistificar o que pudesse ser desmistificado. E chegou há conclusão que “não há botas para descalçar”. Há, isso sim, um manancial de oportunidades que não podem ser desperdiçadas.
 
2. A escolha de Palmela assenta num pilar fundamental. Tratou-se de uma iniciativa com origem nas diversas forças vivas do Concelho (Escolas, Clubes e Autarquias) que, de forma articulada, vieram junto da Federação Portuguesa de Orientação manifestar interesse em receber uma grande organização da modalidade, precisamente no momento em que a Federação Internacional de Orientação propunha a Portugal que se candidatasse ao EOC/ETOC juntamente com alguns outros países. É de louvar que as coisas tenham acontecido desta forma, já que é dada expressão ao genuíno interesse de uma região em acarinhar a modalidade.
 
3. Ao manifestar este interesse, Palmela assegurou desde logo as condições financeiras necessárias para que a organização pudesse ser uma realidade. Como deve ser timbre duma gestão financeira racional em qualquer plano de actividade, o actual Órgão de Gestão da Federação Portuguesa de Orientação não dá passos maiores do que as pernas e que possam condicionar o futuro sustentado da modalidade, pelo que a garantia de apoios financeiros sólidos foi condição sine qua non para a parceria com Palmela. Isoladamente, o factor financeiro não pode sustentar, por si só, a opção da FPO pelo município de Palmela. Mas que é um factor muito importante, todos o devem entender e aceitar.
 
4. Para além dos dois aspectos anteriormente referidos, há a questão dos terrenos e que tem feito soar muitas vozes em surdina. A verdade é que Palmela é o concelho com maior área na zona metropolitana de Lisboa, estendendo-se desde a sede de concelho até Alcácer do Sal e Vendas Novas. Não são, reconhecidamente, os melhores terrenos de Portugal, mas são seguramente terrenos que permitirão fazer um EOC/ETOC 2014 com toda a dignidade que a modalidade exige em Portugal e que nos deixará seguramente orgulhosos de mais um grande evento. De qualquer forma, a “expansão” para concelhos limítrofes está em cima da mesa e não é hipótese que se deva descartar, desde que resulte de um entendimento entre as partes envolvidas.
 
 
5. Mas há ainda um aspecto que, recorrentemente, vem à baila e é discutido de forma apaixonada. É que não nos podemos esquecer que, tão ou mais importante do que a qualidade dos terrenos é o planeamento dos percursos. Sou daqueles que defende que um mau traçado pode arruinar por completo um terreno com boas características, da mesma forma que um traçado inteligente, capaz de tirar o melhor partido das características do terreno, é o melhor ponto de partida para a construção de verdadeiros desafios para os participantes, podendo elevar à condição de excelente um terreno que, à partida, não reunia as condições julgadas ideais. Na verdade, não deveríamos nunca falar de terreno ou traçado de forma isolada, mas sempre em termos binários: terreno/percursos
 
6. As datas para o evento não estão fechadas, aguardando-se o parecer favorável da Federação Internacional de Orientação aos dias sugeridos. Sabe-se, no entanto, que a proposta foi feita tendo em conta diversos factores, nomeadamente a realização de um WRE no país vizinho e dos Campeonatos Nacionais de Espanha, na época da Páscoa. Neste particular, a articulação entre a Federação Espanhola de Orientação e a sua congénere portuguesa tem sido fantástica, pelo que as datas apontadas por ambos os lados potenciam, ao invés de inibirem, a participação em todos os eventos implicados.
 
7. A questão dos Campos de Treino, que constituem uma excelente oportunidade para atrair atletas ao nosso País já em 2013, é outro aspecto que deve merecer uma particular atenção. O Concelho de Palmela poderá não ser hipótese neste particular aspecto, mas isto abre enormes janelas de oportunidade para os clubes localizados na periferia e com terrenos muito idênticos nas respectivas áreas de influência. Há que pôr mãos à obra desde já e apostar fortemente nesta oportunidade. É única e pode não se vir a repetir tão em breve.
 
8. ETOC 2014: Como vamos "descalçar esta bota"? A verdade é que não há qualquer bota a necessitar de ser descalça. Sendo um facto que temos em Portugal uma experiência quase nula na organização de eventos de maior dimensão na disciplina de Orientação de Precisão, não é menos verdade que estamos em contacto com alguns elementos internacionalmente reconhecidos e com cuja colaboração contamos no sentido de nos apoiarem nesta organização. Este compromisso tem de ser entendido por todos como uma oportunidade irrepetível de darmos um enorme salto nesta disciplina em Portugal. E tem de ser entendido desde já! A combinação de mapas e terrenos de qualidade, conhecimento técnico e clima duma bondade imensa pode fazer de Portugal um oásis da Orientação de Precisão no período de Inverno, atraindo a fina flor da Orientação de Precisão mundial. À semelhança, aliás, do que acontece com a Orientação Pedestre.
 
9. Resumindo o que ficou dito, a Federação Portuguesa de Orientação foi ao encontro de uma vontade manifestada por Palmela, que avançou ao mais alto nível com a expressão dessa vontade acompanhada dos necessários apoios e da existência de terrenos adequados. Nenhuma outra região, através da respectiva autarquia ou clubes, alguma vez o fez em relação ao EOC/ETOC e devemos estar gratos e reconhecidos por esta abertura do município à Orientação. As oportunidades que se oferecem são únicas e o seu impacto e abrangência podem projectar a modalidade no nosso País para patamares de excelência nunca antes alcançados. É, pois, fundamental poder contar com o envolvimento massivo de toda a comunidade orientista para, uma vez mais, cada um dar o melhor de si em prol do bem comum. Desta forma, estamos seguros de que Portugal voltará a escrever de novo, com letras douradas, o seu nome no Livro de Honra dos grandes eventos internacionais.
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Terça-feira de Cinzas ou as medidas do (des) governo

1. Ultimam-se os preparativos para mais uma edição do Portugal O’ Meeting. A grande festa da Orientação portuguesa está a chegar e traz com ela a promessa de enorme competitividade e números nunca vistos até hoje em dezassete edições do evento. Oito dos dez melhores atletas mundiais elevam o escalão de Super Elite Masculina ao nível dum Campeonato da Europa ou dum Campeonato do Mundo e perto de metade dos orientistas que integram o top 100 mundial, nos sectores masculino e feminino, jogam nas florestas de Viseu e Sátão as primeiras cartadas da época.

2. Para os atletas, é tempo de avaliar o actual momento e de redefinir estratégias para uma temporada que, este ano, vê as grandes decisões concentradas nos meses de Junho e Julho. Para a organização – a cargo do Clube de Orientação de Estarreja e do Clube de Orientação de Viseu-Natura -, trata-se de mostrar que o evento, nas suas múltiplas vertentes, foi bem planeado e melhor implementado. Bons mapas, percursos bem traçados em terrenos de eleição, competição leal e justiça nos resultados deixarão os atletas satisfeitos. E a maior satisfação da organização residirá, precisamente, no reconhecimento por parte dos atletas.

3. A região centro do País acolhe, durante cerca de uma semana, 1200 atletas estrangeiros, alguns deles de lugares tão distantes como o Canadá ou a Bielorússia, a Nova Zelândia ou o Brasil. Dos quatro cantos de Portugal virá perto de um milhar de participantes. Cerca de um milhão e meio de euros é quanto se estima que o evento possa injectar na economia da região e os vinhos do Dão, a Vitela de Lafões ou os pastéis de Vouzela, entre muitas outras “instituições” do Distrito, serão levados pelo Mundo inteiro graças ao Portugal O’ Meeting. Uma verdadeira lufada de ar fresco, numa conjuntura macroeconómica fortemente recessiva e onde cada euro conta.

4. O querer e a vontade de fazer sempre mais e melhor tem sido apanágio das organizações do Portugal O’ Meeting, de 1996 até aos nossos dias. Com um cariz absolutamente voluntário, centenas, milhares de homens e mulheres têm oferecido o seu tempo, o seu espaço e os seus recursos em prol duma causa entendida como sua e, dessa forma, elevado bem alto a bandeira da modalidade, a bandeira do país. É neste contexto que o anúncio do Governo em transformar a terça-feira de Carnaval numa terça-feira de Cinzas, fazendo dum dia habitualmente de festa e folia um dia útil de trabalho gratuito, cai que nem uma bomba. Uma bomba cujos efeitos destruidores se farão sentir já no curto prazo.

5. Um dos efeitos imediatos prende-se com a quebra nas participações dos atletas portugueses. Se um dia de trabalho a menos tem um peso significativo no bolso de cada um de nós, dois dias terão um peso muito superior. Não é de ânimo leve que se “empenham” dois dias de férias para poder participar no evento e as próprias empresas nem sempre demonstram a flexibilidade necessária para viabilizar estas situações. Todavia, esta quebra acabará, em certa medida, por ser disfarçada pelo facto do rácio entre portugueses e estrangeiros ser de 1:2 e esses, os estrangeiros, estão cá e continuarão a procurar-nos em grande número, assim a qualidade organizativa das próximas edições do Portugal O’ Meeting o justifique.

6. Mas é precisamente sobre o impacto desta medida nas equipas organizativas que recaem as maiores dúvidas e preocupações. Quem se dispõe, voluntariamente, a organizar um Portugal O’ Meeting, conta, entre as premissas positivas (ou menos negativas), o facto de três dos quatro dias do POM serem dias de folga. Os fins-de-semana anteriores só eventualmente não são roubados à família porque a Orientação é o “desporto da família”. Mas há muito que ficará por fazer quando a prioridade se chama Portugal O' Meeting. O peso excessivo duma organização destas recai agora sobre uma estrutura mais fragilizada do que nunca, porquanto perde na terça-feira de Carnaval um pilar importante em todos os aspectos. Às preocupações inerentes à organização do evento, soma-se mais uma. E que não é de somenos.

7. Mas esta situação vem afectar igualmente a prova WRE do fim-de-semana consequente ao Portugal O' Meeting. O núcleo duro das organizações dessas provas prescinde em grande medida da sua presença no Portugal O' Meeting, no sentido de preparar condignamente o seu WRE. A prova não terá o impacto da anterior, mas seis ou sete centenas de estrangeiros ninguém lhe tira. São pessoas que prolongam por dez, doze ou mais dias a sua estadia no nosso País, pessoas que trazem riqueza à nossa economia. Pessoas que são extraordinariamente bem acolhidas e que voltarão nos anos seguintes. E neste bem receber, reconhecidamente, estará uma das chaves do sucesso dos nossos eventos.

8. Parece que quanto mais se apela ao voluntarismo e empreendedorismo, mais se reduzem os apoios para aqueles que desenvolvem soluções sustentáveis e que criam valor económico e social. O futuro afigura-se incerto, os índices revelam desconfiança e descontentamento e medidas como estas são tiros nos próprios pés. Com “passos” destes e a “morder a língua” caminhamos para o abismo.

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