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BLOG 01/01/2008
Sonhar a maratona




Sempre sonhei fazer uma maratona. Mais uma daquelas ideias malucas que me ocorrem enquanto me demoro no duche da manhã. Olhei para a barriga e percebi umas rugas arreliadoras e um pneus a ameaçarem aumentar, o que, confesso, me incomodaram sobremaneira. Ganhei coragem e fui à procura da balança, num receio que se justificava. Não podia ser!! Quase 80 kgs, eu que tinha pesado 65, quando corria atletismo n´Os Ilhavos, o meu clube de sempre. Já se tinham passado alguns anos, mas lá me decidi. Era altura de voltar a pegar nas sapatilhas, não de forma avulsa, como às vezes fazia, para depois andar agarrado às paredes, dorido dos músculos das pernas e com isso me remeter ao conforto da cadeira que junto à secretária me mantinha o dia inteiro, onde por hábito tenho o computador por companheiro de trabalho.

Saí dali à pressa e num instante que se fez luz decidi-me: vou entrar no novo ano a treinar para a maratona. Sabia que tinha de me mostrar determinado e por isso a ideia do Desafio Atletas.net não tardou a surjir por entre o meu olhar distante na mesa de um café. Foi por alturas do Natal e vi aqui a oportunidade de dar um exemplo vivo aqueles que procuram motivação para arrancarem para a grande aventura que é correr uma maratona. Não fazia ideia de como seria e lembro-me bem da triste experiência que tinha tido na Meia Maratona Rota da Luz, há uns anos, em que depois de já não treinar há um ano, me lancei num ritmo descontrolado, nos primeiros 10 quilómetros, para depois me ter dado um colapso em que já via Aveiro como uma miragem, meio desfocafa, a adivinhar o meu desmaio eminente. Acabei, se bem me lembro, de rastos e agarrado pelos meus amigos da Cruz Vermelha, admirados que estavam por me verem naquele estado. Ainda me desculpei com umas palavras que eu próprio mal entendia e lá me deram um copo de água com açucar e deitaram-me numa marquesa para que pudesse recuperar dos excessos de uma corrida desenfreada.

Dias depois liguei ao Manuel Rocha, o meu ex-treinador e falei-me desta ideia. "Que tal, stor, acha que consigo baixar das três horas à maratona? - perguntei-lhe com aquele entusiasmo que me caracteriza sempre que teimosamente quero impor uma ideia. O Manel foi como um pai que eu não tive e aproveito aqui para o dizer. É alguém a quem muito devo, pela forma paternal como sempre me tratou e apesar de ser um homem discreto, ainda me lembro do ar de espanto que fez no dia em que num treino de séries, arranquei determinado, na quinta série de 1000 metros (as minhas preferidas), para um tempo em que batia o meu recorde pessoal. Ele não paráva de rir à gargalhada embora eu, na altura, estivesse demasiado ocupado a tentar recuperar os pulmões e o coração que me tinham saído pela boca.

É... eu era assim... de excessos, às vezes... por isso sabia que tinha de controlar o meu entusiasmo em doses recomendadas a um treino para a maratona. E comecei com uns modestos 30 minutos... Devagar haveria de lá chegar.

Corri ainda com a camisola do pijama por dentro do corta-vento e no primeiro dia do ano, ainda muitos estavam na cama a curar de uma noite mal dormida, já eu me aventurava na estrada a caminho da mata que morava ali ao lado. Quinhentos metros depois abandonava o asfalto e pisava os caminhos do extenso pinhal que me era vizinho. Música nos ouvidos, lá corri despreocupado, pensando na vida, e fiz aquilo nas calmas. No regresso ainda me senti tentado a acelerar, como sempre fazia na parte final dos treinos, mas optei por não o fazer. Sabia que ao outro dia as articulações já se deveriam ressentir do esforço, mesmo que fosse reduzido e optei por pensar à maratona. Calma... muita calma.


 


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