Especial de corrida

Publicado
Qua, 11/03/2015 - 10:40
Última atualização
1 ano

É um exemplo de como um ser diferente pode ser especial. É o caso de Paulinho, um atleta que é especial de corrida.

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São 10 da manhã e Paulo Henriques já está preparado e em pulgas para mais uma corrida. O dia é de sol e na Praia da Barra, no concelho de Ílhavo, onde reside, percebe-se um movimento anormal para um domingo de Inverno. Na ciclovia, alí ao lado, já são muitos os que correm a essa hora, mas ninguém tem a popularidade do atleta mais conhecido da terra. E basta o Paulinho se fazer à rua para se perceber isso mesmo. Põe a mão ao pulso e o arranque do cronómetro dá início a mais um treino, este um pouco mais longo que o habitual, por ser fim-de-semana. E basta percorrer uns meros 200 metros para se repetirem os acenos, os cumprimentos, as palavras de incentivo ao mais popular habitante da Barra, que são retríbuidos com um sorriso e de polegar em riste. «O nosso Paulinho é um orgulho para todos nós» - admite a vizinha, que não esconde a admiração para com o «campeão», como muitos o tratam, no elogio que se repete que só visto, no treino que já vai a meio.
 

Um palmarés de luxo

Paulo Henriques não é um atleta normal. É portador de Trissomia 21 ou Síndrome de Down e durante muito tempo a falta de competições específicas para os atletas como o Paulo, levou a que tivesse de competir em inferioridade face a outros atletas com outros tipos de deficiência intelectual. Mas isso mudou em 2010, quando é criada a IAADS – Federação Internacional de Desporto para Atletas com Síndrome de Down e é dada luz verde para a realização do 1os Campeonatos do Mundo de Atletismo Síndrome de Down, que decorreram no México. Paulo é chamado à seleção nacional portuguesa e foi a grande figura desses campeonatos. Arrebatou os títulos de campeão do mundo dos 800 e 1500 metros e logo, ambos, com recordes mundiais. Foi a confirmação, sobretudo da determinação incrível de Paulo. O irmão recorda um episódio que mostra bem essa força de vontade e querer absolutamente invulgares: «Semanas antes da partida para o México o Paulo dizia a toda a gente que ía ser campeão do mundo e ninguém parecia o levar a sério. Um dia foi encontrado deitado, numa rotunda, em estado de exaustão e desidratação, a meio de um treino. Uma pequena multidão juntou-se à sua volta e chamaram inclusivé o INEM. Ele bebeu água, recompõs-se e foi-se embora dali a correr, deixando toda a gente sem saber o que fazer ou dizer enquanto ele exclamava: «Tenho de ir acabar o treino!». Quando chegou a casa eu nem queria acreditar. Tinha feito 3 horas de corrida sob um sol escaldante».
 

Os jogadores de ambas as equipas, de forma espontânea, alinharam ao intervalo do jogo para saudar o Paulinho e foi bonito de ver o público a aplaudir de pé

Mas muitas outras histórias se podem contar à volta do Paulinho, como é conhecido. Afinal histórias não faltam a esta pessoa especial que na escola primária foi vítima da ignorância dos colegas ditos “normais”. O bullying já era uma realidade, até na aldeia rural de Veiros, onde cresceu e não raras vezes chegava a casa a chorar: «Chamaram-me nomes» - lamentava-se, inconformado. Teve, pois, uma infância difícil, que por respeito à privacidade pedida pela família, se passa à frente nesta reportagem. Valeu a intervenção do irmão, tinha na altura o Paulo 14 anos (tem agora 33). Foi literalmente resgatado e começou então uma lenta e profunda transformação. O irmão levava-o aos treinos e ele parecia gostar: «Corria com os mais novos e percebia-se que adorava correr, mas sempre muito concentrado», diz José, que lembra também a importância do CASCI - Centro de Ação Social do Concelho de Ílhavo na motivação que se sabia ser importante: «No CASCI o Paulo teve a sorte de encontrar o Henrique Santos que com a sensibilidade de professor de educação física ligado à deficiência intectual, viu que tinha alí um diamante em bruto. Foi tudo, pois, uma questão de tempo e trabalho árduo» - sublinha.

 

Após a conquista do título de campeão do mundo, Paulo encheu a sua vitrine de troféus e medalhas, com mais títulos nacionais, europeus e mundiais, condecorações e homenagens várias, onde até no pavilhão da equipa de basquetebol do Illiabum Clube tem, na tribuna de honra, uma cadeira com o seu nome em letras douradas, em sua homenagem, ao lado da do campeão olímpico Nelson Évora: «Os jogadores de ambas as equipas, de forma espontânea, alinharam ao intervalo do jogo para saudar o Paulinho e foi bonito de ver o público a aplaudir de pé» - recorda o presidente do Illiabum Clube.

 

A característica principal de Paulinho é a simpatia natural, porventura mais marcante que os títulos de que se possa orgulhar. Em direto na SIC, Conceição Lino perguntava-lhe quais os dias da semana em que treinava e a resposta veio, de ar sério, na ponta da língua: «Treino às segundas, terças, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos» - o que arrancou a gargalhada e o aplauso da assistência do programa da tarde, perante o riso incontido da apresentadora.

Um recorde muito especial

O Paulinho voltou a ser notícia por estes dias, depois de publicamente ter sido anunciada a sua tentativa de recorde do mundo dos 10 quilómetros de estrada. A autorização especial chegou no início do ano. E é especial por uma série de razões. A começar porque o Paulo é um caso raro a nível mundial e um dos poucos atletas com Síndrome de Down capazes de correr longas distâncias e depois porque a tentativa de recorde vai acontecer a 18 de julho na Costa Nova, precisamente um dos locais de treino do Paulinho, que faz uso quase diário da ciclovia que liga as praias de Ílhavo. Visto como um exemplo de vida, a população local é esperada em força na Costa Nova no apoio ao seu atleta e até a vizinha do Paulinho é categórica: «A essa corrida eu não vou faltar. Mas como eu há muita gente que já sabe da corrida e que vai lá estar» - diz.

 

Entretanto o treino está nos últimos metros e Paulinho gosta de terminar em modo sprint, a dar tudo o que tem e o que pode. São «os rápidos» como ele costuma dizer e faz da entrada da casa a sua meta por aquele dia. Pára o cronómetro e depois do banho lá vai ele, porta-fora, feliz da vida, de música "pimba" nos ouvidos, «dar uma voltinha», que é como quem diz visitar os inúmeros amigos e conhecidos que já estranham se ele não aparecer. E mostra, orgulhoso e ao pormenor, o tempo que traz ao pulso, prova do registo do treino daquele dia, enquanto atira mais uma das suas: «Ah pois!» - diz ele.