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Manuel Silva: «Peço desculpa a Portugal»
O recordista nacional dos 3 mil metros obstáculos, agora a residir no estrangeiro, faz através do Atletas.net o mea culpa de um episódio que lhe marcou a carreira... e a vida
Manuel Silva nunca mais foi o mesmo depois dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, de onde foi expulso da comitiva portuguesa, depois de as suas declarações terem tomado proporções de que o atleta ainda hoje se arrepende. Recorde-se que após uma meia-final dos 3 mil metros obstáculos menos bem conseguida, Manuel Silva produziu declarações que a imprensa tratou de ampliar à escala nacional em que, recorde-se, se queixava da falta de apoios financeiros para a sua preparação. Oito anos depois, o atleta que é primo dos gémeos Castro, reconhece que publicamante ainda não tinha tido oportunidade de se explicar publicamente e apresentar, na primeira pessoa, o seu pedido de desculpas.
Em exclusivo ao Atletas.net, Manuel Silva conta o que terá acontecido: «Eu próprio estava aborrecido com a prova que tinha feito na meia-final dos Jogos de Atenas e pressionado pela imprensa acabei por ser mal interpretado e já se sabe, quando falamos a quente há coisas que não são bem aquilo que queremos dizer e os jornalistas, a maioria especialista em futebol deram outro sentido ao que queria dizer. E o que eu queria dizer é que havia atletas que tinham sido financiados pela preparação olímpica e nem aos Jogos foram e eu quatro anos antes, não tinha tido apoio algum para chegar aos Jogos Olímpicos de Sidney» - explica Manuel Silva, que só tomou noção da proporção alarmante das suas declarações horas depois: «A minha esposa ligou-me e disse-me que na televisão não se falava de outra coisa. Senti então que tinha desiludido muitas pessoas, em especial o presidente da Federação, que muito me tinha apoiado e admito, tive vergonha e senti-me amargamente arrependido. Mas já era tarde demais».
Ao outro dia, às sete da manhã, Manuel Silva era acordado na aldeia olímpica e numa reunião sumária foi-lhe dada ordem de expulsão. «Na prática foi isso. Algo muito semelhante ao que aconteceu há quatro anos com o Marco Fortes, em Pequim» - assegura o antigo atleta que aproveita para assumir a culpa do sucedido: «Não devia ter falado o que falei e ainda por cima a quente. Aproveito, passados este anos todos, para, publicamente pedir desculpas a Portugal e aos Portugueses».
O que é certo é que a vida pessoal e a carreira desportiva de Manuel Silva nunca mais foram as mesmas. Após o incidente de Atenas, visivelmente abatido, admite que pensou em procurar ajuda médica: «Senti necessidade de acompanhamento psicológico, pois durante muito tempo não fui capaz de superar o que aconteceu em Atenas. Vergonha é a palavra que melhor define o que sentia, até porque sou por natureza uma pessoa grata e a simples ideia de ter desiludido e ferido outras pessoas devastou-me completamente» - confessa.
Ida para o Luxemburgo
Manuel Silva deixou Portugal há cerca de um ano e com a esposa e os dois filhos rumou ao Luxemburgo, à procura de uma vida melhor, dadas as dificuldades financeiras da pátria que representou em dois Jogos Olímpicos (Sidney 2000 e Atenas 2004). «Uma aposta ganha» - diz Manuel Silva, agora com 33 anos e que conta com o apoio de familiares radicados há muito no Luxemburgo. De um momento para o outro o antigo atleta olímpico viu-se de vassoura na mão, a varrer ou a limpar o que quer que seja, em nome do bem-estar da família e isso parece que cria alguma confusão aos colegas de trabalho. «Eles quando souberam que eu fui atleta olímpico mostraram-se muito admirados, mas isso só me motiva, pois para mim a minha família é tudo» - garante Manuel Silva que promete voltar a fazer umas corridas ligeiras: «Neste ano que aqui estou engordei 10 quilos» - diz a rir-se o antigo internacional português, que fala com admiração do atletismo no país de acolhimento: «Aqui vê-se gente a correr a toda a hora, em todo o lado. São raras as provas que oferecem prémios monetários, mas a verdade é que qualquer prova facilmente tem três, quatro, cinco mil participantes. O espírito é outro, para muito melhor» - assegura.
Os princípios: a ida para o Sporting e os primos Castro
Manuel Silva tinha 17 anos quando deixou Guimarães e foi treinar para Alvalade, pela mão de Domingos e Dionísio Castro, seus primos direitos. «Foram eles que em acolheram nos primeiros tempos em Lisboa e na altura tinha também o apoio do Bernardo Manuel, que mais que um treinador, era como um pai para nós» - confidencia Manuel Silva que recorda um episódio: «Já na altura o Professor Bernardo Manuel nos alertava para a necessidade de acautelarmos o nosso futuro para além do atletismo, pois podia acontecer uma lesão grave ou algo parecido e uma carreira desportiva ficava logo comprometida. Era uma pessoa que se preocupava muito connosco» - e acrescenta: «Também muito devo ao Domingos Castro, que não é por ser meu primo, mas era um atleta extraordinário e uma pessoa com uma dimensão humana enorme. É, no atletismo, a pessoa que mais admiro, sem dúvida».
Manuel Silva representou ao mais alto nível clubes como o Sporting, Conforlimpa, Gémeos Castro e Benfica. À pergunta sobre qual dos emblemas mais o marcou, o recordista nacional dos 3 mil metros obstáculos é categórico: «Bem... estive dois anos no Benfica e de facto enquanto clube é algo de extraordinário, pois tem uma força enorme. Posso dizer, a título de exemplo, que várias vezes recebi cachets pelo simples facto de representar o Benfica e essa é uma realidade». No entanto, o clube do coração é outro: «Sempre fui sportinguista e vivi em Alvalade alguns dos momentos mais marcantes da minha vida e até digo que quando morrer quero ir vestido com o fato de treino do Sporting. É algo que não se explica. Sente-se» - diz Manuel Silva, com um brilho indisfarçável no olhar, enquanto lamenta que o atletismo clube de Alvalade possa estar em curva descendente: «Parece-se que o atletismo no Sporting se mantém graças ao respeito que a direção tem pelo Professor Moniz Pereira. Quando atletas como o Rui Silva, a Naide ou o Obkwelu terminarem as suas carreiras, não sei o que será do atletismo no meu clube de coração, mas por enquanto não deixa de ser um reflexo da crise pela qual o país atravessa» - acredita Manuel Silva, ele próprio um emigrante que a crise forçou a sair do seu país natal.
Manuel Silva é o recordista nacional dos 3 mil metros obstáculos, com a marca de 8.19,82 minutos, obtida em Estocolmo, a 27 de abril de 2004