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Ser ou não ser eis a questão
Os Jogos Paraolímpicos de Londres abrem de novo as portas à deficiência intelectual, cuja problemática está longe de ser consensual. Porque nem sempre se acredita no que se não vê e a dúvida de ser ou não ser vem quase sempre ao de cima (com VÍDEO)
Em 2012, os Jogos Paraolímpicos de Londres, marcam o regresso do atletismo para pessoas com deficiência intelectual ao programa do mais importante evento desportivo à escala mundial para pessoas com deficiência. Um regresso, embora tímido, nas modalidades de atletismo, natação e ténis de mesa, doze anos depois do escândalo que fez tremer o Comité Paraolímpico Internacional, provocado pela revelação de um elemento da seleção espanhola de basquetebol, que denunciou o facto de que vários atletas, incluindo ele próprio, não terem nenhum tipo de deficiência, o que fez levantar um onda de suspeita generalizada. Como consequência, a Federação Internacional de Desporto para Pessoas com Deficiência Intelectual foi suspensa do Movimento Paraolímpico por tempo indeterminado.
Só em 2009 é que a Assembleia Geral do Comité Paraolímpico Internacional aprovou a reintrodução da deficiência intelectual nos Jogos de 2012, mas com muitas reservas e apertado controlo dos atletas, de forma a evitar os contornos do escândalo de Sidney, tido como uma das maiores fraudes desportivas de todos os tempos do desporto paraolímpico. E na verdade, na fronteira daquilo que é ou não é a deficiência intelectual, é onde reside uma divergência de opiniões entre os que defendem a integração e a veracidade dos teste de avaliação da deficiência intelectual e aqueles que questionam os critérios e até mesmo a forma como a própria integração é feita.
É o caso de Adriano Costa, técnico da Cercifafe e uma das vozes discordantes dos critérios de avaliação dos atletas com deficiência intelectual, ao ponto de se ter demitido, há dois anos, das funções de treinador da seleção nacional de atletismo da ANDDI (Associação Nacional de Desporto para Pessoas com Deficiência Intelectual).
Adriano Costa defende que «os atletas com deficiência intelectual que consigam se inserir nos chamados clubes normais não deveriam voltar a competir nas provas de deficiência intelectual, até para bem da própria integração» - argumenta. E se as dúvidas vão sempre persistir, porque grande parte da deficiência intelectual não é visível, pela aparência física perfeitamente normal de parte dos seus portadores, há contudo uma classe à parte que é, a todos os títulos, inquestionável: o Síndrome de Down ou Trissomia 21 e entre eles os denominados mosaicos, devido a uma variação genética que afecta cerca de 2,5% dos portadores do Síndrome de Down e cuja avaliação é feita pelo teste de cariótipo, que de forma científica, identifica a anomalia genética característica da Trissomia 21. E aqui não há dúvidas. Por isso, Adriano Costa olha para o Síndrome de Down como o futuro do desporto na deficiência intelectual «porque, para mim, esses atletas são de facto e sem margem para dúvidas, portadores de deficiência intelectual».
Testes psicológicos nem sempre consensuais
Após o escândalo de Sidney e no sentido de tentar reabilitar a imagem do desporto na deficiência intelectual, foram constituídos, em vários países, Comités de Eligilibidade, formados por médicos e psicólogos, que tinham por missão validar ou não, atletas que apresentassem sinais de alegado défice intelectual. Anita Costa foi uma das psicólogas do Comité de Eligiblidade português. E foi porque se demitiu das suas funções, há cerca de dois anos, por discordar da não aplicação dos mesmos critérios, definidos pela Organização Mundial de Saúde, para a área da deficiência intelectual e que vão muito para além dos testes psicométricos. «Houve atletas que eu não validei como sendo portadores de deficiência intelectual e não conseguia compreender como é que depois apareciam a competir nas provas da ANDDI, só porque outros colegas entendiam não aplicar os mesmos critérios, perfeitamente definidos. Descontente, demiti-me» - explica Anita Costa, que se deparou com inúmeros casos de alegada deficiência intelectual que na sua opinião não o eram. E dá um exemplo: «Quando alguém, numa consulta, só me dizia que não sabia responder às perguntas que fazia, mas depois era já capaz de responder às mesmas perguntas noutro contexto, essa pessoa não tem propriamente défice intelectual» - explica a psicóloga, que adianta que os casos de elegibilidade de atletas portadores de deficiência intelectual só podem ser validados após uma intensa bateria de testes, onde também é tomado em consideração o percurso de vida da pessoa em causa, uma vez que um dos critérios é a constatação de que o jovem, antes dos 18 anos de idade, teve necessidades educativas especiais «o que por vezes é confundido com falta de estimulação para a aprendizagem» - defende Anita Costa, que admite que muita coisa melhorou nestes anos «embora esta seja sempre uma questão que vai perdurar no tempo e que nunca será consensual ou completamente científica» - admite Anita Costa.
Henrique Santos é outro dos técnicos que defende que os critérios de avaliação da deficiência intelectual deveriam ser mais rigorosos. Soluções fáceis não existem «até porque é uma questão muito delicada, um saco muito grande onde cabe muita coisa» - assegura o professor de educação física ilhavense, há muito ligado ao ensino especial, mas que ainda assim aponta num sentido: «Penso que a solução poderia passar por uma equipa multidisciplinar, capaz de definir com maior precisão os critérios, que a meu ver, deveriam ser mais exigentes».
Esforço da ANDDI na integração dos atletas
A ANDDI é a instituição que em Portugal coordena tudo o que tenha que ver com o desporto para pessoas com deficiência intelectual. Um trabalho que se vem desenvolvendo a muito custo, sem muitos apoios, mas ainda assim com uma intensa atividade digna de registo, que se estende do judo ao basquetebol, passando pelo ténis, ténis de mesa, futebol, futsal, ciclismo, remo e natação. Mas é no atletismo que a ANDDI concentra os mais importantes resultados individuais e coletivos e fruto desse trabalho reside muito na dedicação extrema de um homem: Costa Pereira foi, na sua juventude, jogador de andebol, mas encontrou no atletismo a sua paixão, no pós 25 de Abril e chegou mesmo a treinar atletas internacionais portugueses. A ida para o ensino especial foi um acaso que o levou a dinamizar o atletismo entre uma franja da população onde, reconhece «ainda há muito trabalho a fazer, até porque as nossas seleções nacionais não são o espelho do potencial que temos, muitas vezes devido à dificuldade das próprias famílias em admitir a deficiência dos seus filhos» - reconhece Costa Pereira, que reage de forma categórica às críticas de quem questiona a deficiência intelectual: «Há sempre por onde pegar (…) mas os atletas têm dificuldades de aprendizagem e eles não têm de andar com um rótulo na cabeça a dizer que são deficientes intelectuais e a integração nos clubes ditos normais é um trabalho que queremos desenvolver e veja-se o exemplo do Pedro Isidro, que na marcha foi o melhor português na Taça da Europa, em Olhão».
António Oliveira, treinador e fisioterapeuta, é outro dos que defende a posição de Costa Pereira. «Se vamos dar ouvidos às críticas então a integração nunca se faz» - reafirma o técnico, que já trabalha com o atletismo na deficiência intelectual há 20 anos, mas que, contudo, reconhece problemas do passado: «De facto houve alguns casos, em que se podiam colocar em causa a veracidade da alegada deficiência intelectual de alguns atletas, mas hoje em dia nenhum atleta vem para o atletismo para pessoas com deficiência intelectual caído do céu» - diz António Oliveira.
Lenine Cunha - Caso de sucesso
Lenine Cunha é, muito provavelmente, o caso de maior sucesso entre os atletas portadores de deficiência intelectual do nosso país. Com 28 anos de idade, Lenine vive, literalmente, para o atletismo, com a ajuda dos pais, é certo, mas também amealhando os cerca de 400 euros mensais da bolsa paraolímpica e as verbas do patrocínio de uma entidade bancária que lhe assegura 5 mil euros por ano. «Não fosse o BANIF não me era possível dedicar-me a tempo inteiro ao atletismo» - confessa Lenine Cunha, que no salto em comprimento tem um recorde pessoal de 7.14 metros e que no seu palmarés tem mesmo um terceiro lugar nos Campeonatos de Portugal Absolutos, em 2005.
Quem olha para Lenine Cunha não lhe vê nenhuma deficiência «e esse é o problema, porque a deficiência intelectual não se vê» - reconhece Lenine, que explica o seu caso particular: «Aos quatro anos de idade tive um ataque de meningite que me afectou o lado esquerdo do corpo e fui para a escola primária sem sequer falar e hoje admito que ainda tenho muitos problemas de aprendizagem. O acompanhamento de psicólogos e psiquiatras foi uma constante durante todo o meu percurso escolar».
Contudo, é com orgulho que diz que hoje é uma pessoa autónoma: «Vivo sozinho, na minha casa e isso também se deve à educação dos meus pais que sempre procuraram que eu fosse o mais independente possível e sei que o desporto tem um papel muito importante na minha vida, porque me ajudou a ultrapassar as dificuldades».
Lenine Cunha é um dos candidatos às medalhas nos Jogos Paraolímpicos de Londres, que em 2012 marcam o refazer das pazes, embora cauteloso, entre o movimento olímpico e a deficiência intelectual.